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A acromegalia é uma doença causada pela secreção excessiva e crônica do hormônio do crescimento (GH) pela hipófise. Em 99% dos casos, a causa é um adenoma hipofisário funcionante (somatotropinoma). Quando o quadro se instala antes do fechamento das epífises (infância e adolescência), produz o gigantismo. Quando inicia na idade adulta, gera a acromegalia clássica — com crescimento progressivo das extremidades e alterações faciais.
Como os sintomas são insidiosos e progressivos, o diagnóstico frequentemente é tardio — em média, 5 a 10 anos após o início da doença. Esse atraso permite o desenvolvimento de complicações cardiovasculares, metabólicas e respiratórias que aumentam significativamente a mortalidade quando não tratadas. A boa notícia: com diagnóstico adequado e cirurgia transesfenoidal endoscópica (tratamento de 1ª linha), associada quando necessário a medicamentos modernos (análogos de somatostatina) e radiocirurgia, a expectativa de vida pode ser restaurada ao normal. Esta página é um guia detalhado para pacientes e familiares. Para visão completa, leia o Guia Completo de Adenoma Hipofisário.
Em Resumo
O que é
Doença causada por excesso crônico de hormônio do crescimento (GH) — quase sempre por adenoma hipofisário.
Quem afeta
Adultos entre 30-50 anos. Discreto predomínio masculino. Prevalência ~50-70 por milhão.
Sintomas físicos
Crescimento de mãos, pés, mandíbula, nariz. Mudança facial gradual. Suor excessivo.
Sintomas sistêmicos
Cefaleia, apneia obstrutiva, síndrome do túnel do carpo, artralgia, fadiga.
Complicações
Cardiomiopatia, diabetes, hipertensão, risco aumentado de câncer de cólon.
Diagnóstico
IGF-1 elevado + GH não suprimido no TOTG + ressonância magnética com protocolo de sela turca.
Tratamento
1ª linha: cirurgia transesfenoidal endoscópica. Complementar: análogos de somatostatina e/ou radiocirurgia.
Prognóstico
Com tratamento adequado, expectativa de vida próxima ao normal. Sem tratamento, mortalidade 2-3x maior.
A hipófise anterior produz o hormônio do crescimento (GH), responsável pelo desenvolvimento normal do organismo. O GH atua principalmente através do IGF-1 (fator de crescimento insulina-símile 1) — produzido pelo fígado em resposta ao estímulo do GH. O IGF-1 é o principal mediador dos efeitos anabólicos do GH em ossos, músculos, vísceras e tecido conectivo.
Normalmente, a secreção de GH é pulsátil e regulada por dois hormônios hipotalâmicos: o GHRH (estimulador) e a somatostatina (inibidora). Na acromegalia, essa regulação é perdida — o adenoma hipofisário secreta GH continuamente, em quantidades suprafisiológicas, independentemente dos sinais normais do organismo. O IGF-1 fica cronicamente elevado, gerando crescimento progressivo de tecidos sensíveis ao hormônio.
Em cerca de 99% dos casos, a acromegalia é causada por um adenoma hipofisário funcionante secretor de GH — o somatotropinoma. Este tumor pode ser:
Causas raras (<1%): tumores ectópicos produtores de GH ou GHRH em pulmão, pâncreas ou outras localizações.
A acromegalia é uma das doenças endócrinas com maior atraso diagnóstico — em média, 5 a 10 anos entre o início dos sintomas e o diagnóstico. Vários fatores explicam isso:
Evolução Insidiosa
Mudanças físicas ocorrem ao longo de anos. O paciente não percebe — adapta-se gradualmente.
Sintomas Inespecíficos
Fadiga, suor, dor articular são atribuídos a "envelhecimento", "estresse" ou "trabalho pesado".
Mudança Facial Gradual
Familiares próximos também se adaptam. Fotos antigas revelam a evolução tardiamente.
Diagnósticos Isolados
Cada complicação (apneia, diabetes, túnel do carpo) tratada isoladamente, sem investigação da causa comum.
Dica diagnóstica clássica: compare fotos da face de 5, 10 e 15 anos atrás. A mudança gradual da fisionomia — proeminência mandibular, aumento de nariz, lábios mais espessos, alargamento da raiz nasal — é frequentemente o primeiro indício suspeito. Mudança de tamanho de calçados ou anéis em adulto sem causa aparente também é sinal de alerta.
Os sintomas da acromegalia podem ser agrupados em três categorias com mecanismos diferentes: efeitos físicos visíveis (crescimento de extremidades), sintomas sistêmicos (apneia, túnel do carpo, dor articular) e alterações metabólicas (diabetes, hipertensão, dislipidemia). Em macroadenomas, ainda se somam sintomas por efeito de massa.
Crescimento de Mãos e Pés
Mudança de número de anel, calçados que ficam apertados sem ganho de peso, mãos "encorpadas".
Prognatismo
Mandíbula proeminente, mordida prejudicada, espaçamento entre dentes (diastema).
Aumento de Nariz e Lábios
Nariz mais largo, lábios mais espessos, traços faciais mais grosseiros progressivamente.
Macroglossia
Língua aumentada — pode causar marcas dentárias laterais e contribuir para apneia obstrutiva.
Voz Mais Grave
Espessamento de cordas vocais e mucosa laríngea altera o timbre vocal progressivamente.
Pele Espessa e Oleosa
Pele mais grossa, oleosa, com poros aumentados. Pode haver acantose nigricans (manchas escuras).
Hiperidrose
Sudorese excessiva — sintoma frequente e incômodo, sem relação com temperatura ambiental.
Crescimento de Pelos
Pelos corporais mais grossos e abundantes — pode causar incômodo estético, especialmente em mulheres.
Apneia Obstrutiva do Sono
Presente em 70-80% dos pacientes. Causada por macroglossia e espessamento de tecidos das vias aéreas.
Síndrome do Túnel do Carpo
Bilateral em ~50% dos casos. Dormência e dor nas mãos por compressão do nervo mediano.
Artralgia e Artrose Precoce
Dor articular generalizada por crescimento de cartilagem. Quadris, joelhos e coluna mais afetados.
Cefaleia
Por efeito metabólico do GH e/ou efeito de massa em macroadenomas — frequente e persistente.
Fadiga e Sonolência Diurna
Cansaço crônico, sonolência durante o dia (frequentemente relacionada à apneia do sono).
Alterações Sexuais
Disfunção erétil (homens), alterações menstruais e infertilidade (mulheres) — comuns.
O GH em excesso causa resistência insulínica e alterações cardiovasculares progressivas:
Atenção — Mortalidade Aumentada
Pacientes com acromegalia não tratada têm mortalidade 2 a 3 vezes maior que a população geral, principalmente por:
Com tratamento adequado que normaliza GH e IGF-1, a expectativa de vida pode ser restaurada ao nível da população geral. Por isso, diagnóstico precoce é fundamental.
O diagnóstico da acromegalia combina avaliação clínica, testes laboratoriais específicos e imagem da hipófise:
Teste de Rastreamento
Primeiro teste de rastreamento. Valor elevado para idade e sexo sugere acromegalia. Estável ao longo do dia (não pulsátil como GH), por isso mais confiável.
Teste Confirmatório
Teste oral de tolerância à glicose com dosagens seriadas de GH. Normalmente, a glicose suprime o GH para abaixo de 1 ng/mL. Na acromegalia, o GH não suprime (não cai).
Painel Hormonal Completo
Prolactina (até 30-40% têm hiperprolactinemia associada), TSH/T4 livre, ACTH/cortisol, LH/FSH, testosterona/estradiol — avaliar hipopituitarismo associado.
Imagem
Identifica o adenoma e define tamanho, extensão e relação com estruturas adjacentes (quiasma óptico, seios cavernosos). Essencial para planejamento cirúrgico.
Investigação obrigatória ao diagnóstico
Os objetivos do tratamento são normalizar GH e IGF-1, controlar comorbidades e melhorar a qualidade e expectativa de vida. O tratamento é multidisciplinar — envolve neurocirurgião, endocrinologista, cardiologista e outros especialistas conforme as complicações. Três modalidades principais:
Tratamento de Escolha
A cirurgia transesfenoidal endoscópica é o tratamento de primeira linha para a maioria dos pacientes com acromegalia. Realizada por acesso pela narina, sem cicatriz visível, permite ressecção do tumor com excelente preservação da hipófise normal.
Taxa de cura cirúrgica (definida como normalização de IGF-1 e GH suprimido no TOTG): 70-90% em microadenomas e 30-50% em macroadenomas, com tendência crescente em centros experientes utilizando técnicas modernas e neuronavegação.
Cicatriz
Nenhuma
Internação
2-4 dias
Retorno
2-3 sem
Cura micro
70-90%
Saiba mais sobre a Cirurgia Transesfenoidal Endoscópica no guia de Adenoma Hipofisário.
Indicado em pacientes com controle bioquímico inadequado após cirurgia, recidiva, ou como tratamento pré-operatório em casos específicos. Três classes principais:
Principal classe
Octreotide LAR e Lanreotide (depot mensal — injeção a cada 28 dias). Reduzem GH e IGF-1, podem reduzir tamanho tumoral. Eficácia: normalização em 30-50% dos casos.
Casos refratários: Pasireotide LAR (alternativa de 2ª geração).
Para casos refratários
Antagonista do receptor de GH. Bloqueia a ação do GH e normaliza IGF-1 em 90% dos casos refratários. Aplicação subcutânea diária. Custo elevado.
Indicação: falha aos análogos de somatostatina.
Adjuvante em selecionados
Agonista dopaminérgico oral. Eficácia limitada em monoterapia, mas pode ser associada aos análogos em casos com controle parcial.
Indicação: hiperprolactinemia associada ou controle parcial com somatostatina.
Quando indicada
Modalidades: Gamma Knife ou CyberKnife (dose única) ou radioterapia fracionada. Resposta hormonal é lenta — pode levar 5-10 anos para atingir controle endócrino completo. Risco de hipopituitarismo a longo prazo (~50% em 10 anos).
Tratamento simultâneo das complicações é tão importante quanto controlar o GH:
Importante: o sucesso do tratamento da acromegalia depende fortemente de equipe multidisciplinar experiente — neurocirurgião com expertise em cirurgia transesfenoidal, endocrinologista com experiência em adenomas hipofisários, e suporte de cardiologia, otorrinolaringologia e oftalmologia conforme necessário. Centros com alto volume de casos têm taxas de cura cirúrgica e controle bioquímico significativamente superiores.
Respostas diretas às dúvidas mais comuns de pacientes diagnosticados com acromegalia.
Por isso o diagnóstico precoce é crucial — antes que mudanças ósseas estruturais se estabeleçam definitivamente.
Dr. Wilson Morikawa Jr.
Neurocirurgião — CRM-SP 163.410 · RQE 101.438
Estágio em Neurooncologia — Universidade de Tsukuba (Japão)
Para avaliação especializada de acromegalia — segunda opinião sobre diagnóstico, indicação cirúrgica, casos refratários à medicação ou planejamento de cirurgia transesfenoidal endoscópica — agende uma consulta. Teleconsulta disponível para pacientes de outras cidades. Leia também: