Dr. Wilson Morikawa Jr.

Neurocirurgião Especialista em Coluna

Mielopatia Cervical — Sintomas, Escala mJOA e Tratamento Cirúrgico

A mielopatia cervical é a disfunção da medula espinhal causada por compressão crônica na região do pescoço — quadro mais grave do que a simples compressão de raiz nervosa (radiculopatia). Diferente da hérnia que aperta um nervo isolado, a mielopatia compromete a medula em si, afetando braços, pernas, equilíbrio e até funções de bexiga e intestino.

É uma condição com janela de oportunidade cirúrgica estreita: quanto mais cedo a descompressão é realizada, maior a chance de recuperação funcional. Os sintomas clássicos — perda de destreza fina das mãos, alterações de marcha, sinal de Lhermitte — devem ser reconhecidos e avaliados com urgência, mesmo quando parecem leves.

Em Resumo

O que é

Disfunção da medula espinhal cervical por compressão crônica — afeta braços, pernas e equilíbrio.

Causa principal

Espondilose cervical (degeneração + osteófitos + hipertrofia ligamentar) — mais comum acima de 50 anos.

Sintomas-chave

Mão mielopática (perda de destreza fina), marcha alargada, sinal de Lhermitte, hiperreflexia.

Diferença para radiculopatia

Radiculopatia afeta UM nervo (dor irradiada); mielopatia afeta a MEDULA (sintomas em 4 membros).

Avaliação

Ressonância cervical + Escala mJOA (modified Japanese Orthopaedic Association).

Tratamento

CIRÚRGICO é a principal terapia — descompressão por via anterior (ACDF/ACCF) ou posterior (laminectomia/laminoplastia).

Janela cirúrgica

Operar antes da atrofia medular — quanto mais cedo, melhor o prognóstico funcional.

Sem tratamento

Progressão é regra em mielopatia moderada/severa — pode levar a quadriparesia.

O que é a Mielopatia Cervical

A coluna cervical é composta por 7 vértebras (C1 a C7) que protegem a medula espinhal — a "autoestrada nervosa" que conecta o cérebro ao restante do corpo. Quando estruturas dessa região (discos, osteófitos, ligamentos) estreitam o canal vertebral, a medula passa a sofrer compressão crônica.

Essa compressão progressiva causa isquemia local (redução do fluxo sanguíneo medular) e lesão das fibras nervosas que descem (motoras) e sobem (sensitivas). O resultado é a mielopatia: disfunção neurológica que pode comprometer todos os membros, o equilíbrio e até funções autonômicas.

Radiculopatia vs Mielopatia — A Diferença Crítica

Radiculopatia Cervical

Compressão de raiz nervosa

  • Compressão de UM nervo isolado
  • Dor irradiada para UM braço, ombro ou mão
  • Parestesia em dermátomo específico
  • Sintomas unilaterais em regra
  • Bom prognóstico com tratamento conservador
  • Cirurgia em casos refratários

Mielopatia Cervical

Compressão da medula

  • Compressão da medula espinhal
  • Sintomas em 4 membros (braços + pernas)
  • Alteração de marcha e equilíbrio
  • Perda de destreza fina das mãos
  • Hiperreflexia, espasticidade, sinais piramidais
  • Cirurgia é o tratamento principal

Causas da Mielopatia Cervical

A causa mais frequente é a espondilose cervical degenerativa — o envelhecimento natural da coluna. Mas existem várias outras causas que podem levar ao mesmo quadro:

Espondilose Cervical

Causa mais frequente (>70% dos casos). Combinação de degeneração discal, osteófitos, hipertrofia do ligamento amarelo e abaulamento posterior. Mais comum acima de 50 anos.

Hérnia de Disco Cervical Grande

Hérnia volumosa central que comprime diretamente a medula — pode evoluir aguda ou progressivamente.

OPLL

Ossificação do Ligamento Longitudinal Posterior — calcificação anômala que estreita o canal. Mais frequente em asiáticos.

Estenose Congênita

Canal cervical anatomicamente estreito desde o nascimento. Pacientes desenvolvem sintomas mais jovens.

Traumas Cervicais

Fraturas, luxações, lesões ligamentares ou hérnias agudas pós-trauma podem desencadear mielopatia.

Tumores

Tumores intradurais, extradurais ou metástases vertebrais podem comprimir a medula cervical.

Doenças Reumáticas

Artrite reumatoide cervical (especialmente C1-C2) pode causar instabilidade e mielopatia secundária.

Espondilolistese Cervical

Deslizamento vertebral cervical (mais raro que lombar) com instabilidade e compressão medular.

Sintomas da Mielopatia Cervical

Os sintomas da mielopatia são silenciosos no início — frequentemente confundidos com "envelhecimento normal", artrite ou cansaço. Por isso, o diagnóstico é muitas vezes tardio. Os 6 sintomas clássicos:

Sinal #1

Mão Mielopática

Perda de destreza fina — dificuldade em abotoar camisa, escrever, segurar talheres. Sintoma precoce frequentemente subestimado.

Sinal #2

Alteração da Marcha

Marcha alargada e instável, sensação de desequilíbrio, tendência a tropeçar. Frequentemente confundida com "problema de coluna lombar".

Sinal #3

Sinal de Lhermitte

Sensação de choque elétrico descendo pela coluna ao flexionar o pescoço. Sinal altamente específico de compressão medular.

Sinal #4

Fraqueza Difusa

Fraqueza em quatro membros (braços e pernas) — diferente da fraqueza isolada da radiculopatia. Pode ser sutil no início.

Sinal #5

Hiperreflexia

Reflexos exaltados, clônus, sinal de Hoffmann positivo, sinal de Babinski. Achados detectados no exame neurológico especializado.

Sinal #6

Bexiga Neurogênica

Em fases avançadas: urgência miccional, incontinência ou retenção urinária. Sinal de progressão significativa.

Avaliação Funcional

Escala mJOA — Quantificando a Severidade

A Escala mJOA (modified Japanese Orthopaedic Association) é o padrão internacional para avaliar e classificar a severidade da mielopatia cervical. Pontua de 0 a 17, avaliando função motora dos braços e pernas, função sensitiva e função vesical.

mJOA 15–17

Leve

Conservador + vigilância. Cirurgia se progressão.

mJOA 12–14

Moderada

Cirurgia indicada na maioria dos casos.

mJOA <12

Severa

Cirurgia urgente. Janela cirúrgica estreita.

Janela de Oportunidade

Tempo é Função — Operar Antes da Atrofia Medular

A mielopatia cervical tem uma característica única: a recuperação funcional depende do tempo até a cirurgia. Quanto mais cedo a descompressão, maior a chance de melhora.

  • Cirurgia precoce: 80-90% dos pacientes apresentam melhora ou estabilização da função.
  • Cirurgia tardia: melhora menor — a medula já sofreu atrofia e gliose.
  • Sem cirurgia: progressão é a regra em casos moderados e severos, com risco de quadriparesia.

Por isso, sintomas suspeitos — mesmo leves — devem ser avaliados por neurocirurgião sem postergação.

Diagnóstico

O diagnóstico é clínico-radiológico, combinando avaliação especializada com imagem:

Ressonância Magnética Cervical

Exame padrão-ouro. Mostra a compressão medular, presença de hiperintensidade em T2 (mielomalácia) — sinal de lesão medular estabelecida.

Tomografia Computadorizada

Detalha estruturas ósseas, osteófitos e OPLL. Complementar à RM no planejamento cirúrgico.

Radiografias Dinâmicas

Avaliam alinhamento e detectam instabilidade em flexão/extensão. Importantes em casos de espondilolistese ou trauma.

Exame Neurológico Completo

Avaliação de força, sensibilidade, reflexos, marcha e aplicação da escala mJOA. Define indicação e momento cirúrgico.

Tratamento da Mielopatia Cervical

Ao contrário da maioria das doenças da coluna, na mielopatia cervical o tratamento cirúrgico é a principal terapia. O tratamento conservador é reservado a casos muito leves (mJOA 15-17) com vigilância rigorosa — e mesmo nesses casos, qualquer progressão indica cirurgia.

Tratamento Conservador (Apenas em Casos Selecionados)

Restrito a mielopatia leve (mJOA 15-17) sem progressão

  • Vigilância rigorosa com avaliações clínicas a cada 3-6 meses
  • Modificação de atividades — evitar hiperextensão, esportes de impacto e contato
  • Fisioterapia cervical de baixa intensidade — fortalecimento postural sem manipulação
  • Colar cervical em períodos de dor aguda (uso limitado)
  • Medicação para dor neuropática associada

Qualquer sinal de progressão (clínica ou imagem) muda a indicação para cirurgia.

Tratamento Cirúrgico — Descompressão da Medula

O objetivo é aliviar a compressão medular, devolvendo espaço ao canal vertebral. A escolha da técnica depende do número de níveis afetados, da localização da compressão e do alinhamento cervical:

ACDF

VIA ANTERIOR

Discectomia + Fusão

Acesso pequeno na frente do pescoço, remoção do disco que comprime a medula e fusão com enxerto/cage e placa. Padrão-ouro para 1 a 2 níveis com compressão anterior.

Indicação: mielopatia por hérnia ou espondilose em 1-2 níveis.

ACCF

VIA ANTERIOR

Corpectomia + Fusão

Remoção parcial de um corpo vertebral inteiro para acessar compressões retrocorporais ou de múltiplos níveis. Cage maior preenche o espaço com placa de fixação.

Indicação: compressão retrocorporal, OPLL, deformidade cifótica.

Laminectomia + Artrodese

VIA POSTERIOR

Descompressão posterior

Remoção das lâminas vertebrais com fixação por parafusos para descompressão de múltiplos níveis. Indicada quando a compressão é predominantemente posterior ou multinível.

Indicação: estenose multinível, alinhamento adequado, compressão posterior.

Laminoplastia

VIA POSTERIOR

Preserva movimento

Abertura "em livro" das lâminas vertebrais, ampliando o canal vertebral sem fundir as vértebras. Preserva o movimento — alternativa à laminectomia em casos selecionados.

Indicação: OPLL, mielopatia multinível em pacientes mais jovens com alinhamento preservado.

Segurança Intraoperatória

Neuromonitorização Intraoperatória — Cirurgia em Tempo Real

Em cirurgias para mielopatia cervical, o uso de neuromonitorização intraoperatória (potenciais evocados motores e somatossensitivos) é fundamental. Permite avaliar a função medular em tempo real durante o procedimento, alertando imediatamente caso haja qualquer alteração na transmissão neural.

Combinado com microscopia cirúrgica de alta definição, sistema de navegação intraoperatória e equipe especializada, transforma uma cirurgia historicamente delicada em um procedimento altamente seguro e previsível — quando realizado em centros de referência.

Recuperação Pós-Operatória

  • Internação: 2 a 4 dias na maioria dos casos
  • Colar cervical: uso variável, 2 a 6 semanas conforme técnica
  • Caminhada: precoce, com orientação fisioterapêutica
  • Retorno a atividades leves: 4 a 6 semanas
  • Fisioterapia neurológica: essencial para recuperação motora — início 2-4 semanas
  • Recuperação plena: 6 a 12 meses, com curva proporcional à severidade pré-operatória

Importante: a recuperação da função após cirurgia para mielopatia depende fortemente do tempo de evolução antes da cirurgia e do grau de lesão medular pré-existente (hiperintensidade em T2 na ressonância). Em casos operados precocemente, a melhora pode ser dramática. Em casos avançados, a cirurgia frequentemente impede a progressão sem reverter completamente os sintomas — daí a importância de procurar avaliação especializada o quanto antes.

Perguntas Frequentes sobre Mielopatia Cervical

Respostas diretas às dúvidas mais comuns de pacientes diagnosticados com mielopatia cervical.

Mielopatia cervical tem cura?
A mielopatia não tem "cura" no sentido de a medula se regenerar sozinha — uma vez lesionada, a recuperação espontânea é limitada. Mas tem tratamento eficaz: a cirurgia precoce interrompe a progressão e, em casos operados antes de atrofia medular significativa, pode reverter parcial ou completamente os sintomas. O conceito-chave é tempo: quanto mais cedo a cirurgia, melhor o prognóstico funcional.
Qual a diferença entre mielopatia e radiculopatia cervical?
A diferença é qual estrutura está sendo comprimida:
  • Radiculopatia: compressão de UMA raiz nervosa. Causa dor irradiada em UM braço, parestesia em dermátomo específico, sintomas geralmente unilaterais. Boa resposta ao tratamento conservador.
  • Mielopatia: compressão da MEDULA. Causa sintomas em 4 membros, alteração de marcha, perda de destreza fina, hiperreflexia. A cirurgia é o tratamento principal.

Um paciente pode ter ambos simultaneamente — chamado quadro mielorradiculopático.

Como sei se meus sintomas são mielopatia ou "envelhecimento normal"?
Vários sintomas da mielopatia inicial são frequentemente atribuídos ao envelhecimento — perda de equilíbrio, dificuldade com botões, marcha menos firme. A pista é a combinação e progressão desses sinais. Procure avaliação especializada se:
  • Perda gradual de destreza fina das mãos (camisas, talheres, escrita)
  • Marcha alargada ou instável, sensação de "perna pesada"
  • Sensação de choque ao flexionar o pescoço (Lhermitte)
  • Fraqueza em braços ou pernas sem causa explicada

Um exame neurológico especializado e ressonância cervical esclarecem o diagnóstico em pouco tempo.

O que é a escala mJOA e como ela define o tratamento?
A Escala mJOA (modified Japanese Orthopaedic Association) é o sistema internacional para classificar a severidade da mielopatia cervical. Pontua de 0 a 17, avaliando função motora (braços e pernas), função sensitiva e função vesical. A pontuação orienta a conduta:
  • 15-17 (leve): tratamento conservador com vigilância. Cirurgia se progressão.
  • 12-14 (moderada): cirurgia indicada na maioria dos casos.
  • <12 (severa): cirurgia indicada com urgência relativa.

A escala também serve para acompanhar a evolução antes e depois do tratamento.

Por que a cirurgia precoce é tão importante?
A medula espinhal tem capacidade limitada de recuperação após lesão crônica. Conforme a compressão persiste, ocorre isquemia (redução do fluxo sanguíneo), gliose (cicatrização) e atrofia. Esse processo é parcialmente irreversível. Por isso:
  • Cirurgia precoce: 80-90% dos pacientes melhoram ou estabilizam.
  • Cirurgia tardia: menor margem de melhora — a recuperação é limitada pelo dano já estabelecido.
  • Sem cirurgia: progressão é a regra em mielopatia moderada-severa.

A presença de "hipersinal em T2" na ressonância indica atrofia medular estabelecida — quadro que se evita operando antes.

Qual a diferença entre via anterior e via posterior?
Ambas têm o mesmo objetivo (descomprimir a medula), mas com abordagens diferentes:
  • Via anterior (ACDF/ACCF): acesso pela frente do pescoço, remove o disco ou parte do corpo vertebral que comprime. Ideal para 1-3 níveis com compressão anterior.
  • Via posterior (laminectomia/laminoplastia): acesso por trás, amplia o canal pela parte posterior. Ideal para compressão multinível ou compressão posterior dominante.

A escolha depende da localização da compressão, número de níveis e alinhamento cervical — definição feita pela avaliação clínico-radiológica especializada.

A cirurgia para mielopatia cervical é arriscada?
Como qualquer cirurgia da coluna cervical, tem riscos. Mas com técnicas modernas — microscopia cirúrgica, neuromonitorização intraoperatória, navegação 3D — e equipe experiente, complicações graves são raras (menos de 1-2%). O risco principal é a manipulação da medula já comprimida; por isso a precisão técnica é fundamental. Em mãos especializadas, a cirurgia é altamente segura e os benefícios superam amplamente os riscos.
O plano de saúde cobre cirurgia para mielopatia cervical?
Sim. ACDF, ACCF, laminectomia com artrodese e laminoplastia são procedimentos previstos pela ANS e cobertos pela maioria dos planos para mielopatia cervical sintomática. A autorização exige laudo médico detalhado com correlação clínico-radiológica (escala mJOA, achados de imagem, indicação técnica). O escritório auxilia no preparo da documentação.
Dr. Wilson Morikawa Jr. - Especialista em Mielopatia Cervical

Tratamento Especializado

Mielopatia Cervical
em São Paulo

Dr. Wilson Morikawa Jr. — Neurocirurgião
CRM-SP 163.410  ·  RQE 101.438

Avaliação especializada para diagnóstico precoce e tratamento da mielopatia cervical — incluindo aplicação da Escala mJOA, revisão de exames de imagem e planejamento cirúrgico individualizado com ACDF, ACCF, laminectomia ou laminoplastia, conforme cada caso. Cirurgias em centros de referência com neuromonitorização intraoperatória e microscopia de alta definição. Suspeita de mielopatia exige avaliação em até 7 dias. Para visão completa, leia o Guia Completo de Doenças da Coluna.

Cirurgia — Hospitais Credenciados

Hospital Sírio-Libanês  ·  Hospital Albert Einstein  ·  Hospital Samaritano  ·  Hospital São Luiz

Agende sua avaliação especializada:

Consultório

Rua Cristiano Viana, 401
Conjunto 209 — Pinheiros
São Paulo / SP

Atendimento

Segunda a Sexta
08h00 às 20h00

Modalidades

Consulta presencial
Teleconsulta disponível