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A radiografia está boa, o osso consolidou, o cirurgião diz que a cirurgia foi um sucesso — e o pé continua doendo. Não é impressão sua e não é falta de paciência. Existe uma explicação anatômica: o pé e o tornozelo são cruzados por nervos superficiais e finos, que passam a poucos milímetros do osso e da via de acesso. Quando um deles é lesado, ele continua enviando sinal de dor mesmo depois que tudo cicatrizou.
É mais frequente do que se imagina. Depois de fratura de tornozelo operada, praticamente metade das pessoas relata alguma dor persistente, e cerca de 23% descrevem uma dor com características de lesão de nervo. Depois de cirurgia de joanete, o desconforto persistente aparece em 30% a 65%, sendo grave em 3% a 8%. Nas cirurgias eletivas do pé e do tornozelo como um todo, a dor incapacitante que não passa é estimada entre 10% e 50%, dependendo de como se define.
Esta página explica quais nervos são lesados em cada cirurgia, como se reconhece que a dor é de origem neurológica, o que precisa ser afastado antes de tratar, o que a literatura mostra sobre cada degrau de tratamento — inclusive os números desfavoráveis — e em que ponto a neuromodulação entra.
Em Resumo
O mecanismo
Os nervos sensitivos do pé correm logo abaixo da pele, sobre o osso. A incisão, o afastador, a placa ou o próprio edema podem comprimi-los ou seccioná-los.
Após fratura de tornozelo
Dor persistente em cerca de 48%, com características de dor de nervo em 23%. O fibular superficial é o mais atingido.
Após cirurgia de joanete
Desconforto persistente em 30% a 65%, grave em 3% a 8%. O nervo dorsomedial do hálux é o que corre risco.
Após cirurgia de Morton
Alívio completo em cerca de 74%. Em uma parcela, o coto do nervo cortado volta a doer meses depois — o neuroma de coto.
Nem toda dor é do nervo
Material solto, consolidação incompleta, artrose vizinha e sobrecarga de apoio explicam boa parte dos casos — e o tratamento muda.
O que se trata primeiro
Medicação específica para dor neuropática e reabilitação dirigida. Procedimento é degrau posterior, nunca ponto de partida.
A dor normal do pós-operatório vem da agressão aos tecidos e some conforme eles se recuperam — em geral dentro de seis a doze semanas. A dor neuropática obedece a outra lógica. Ela vem do próprio nervo: quando um filete sensitivo é cortado, estirado, comprimido por edema ou preso em tecido cicatricial, ele passa a disparar sinal sem estímulo. O cérebro recebe esse sinal e interpreta como dor vindo de uma região que, do ponto de vista dos tecidos, já está curada.
O pé é particularmente vulnerável a isso por um motivo estrutural: seus nervos sensitivos são superficiais e correm quase colados ao osso, sem massa muscular protegendo. Não existe caminho até o esqueleto do pé que não passe perto de um deles.
Fibular superficial
Cruza a face lateral do tornozelo e leva sensibilidade ao dorso do pé. É o nervo mais atingido nas cirurgias da região — responde por cerca de 56% das lesões sintomáticas.
Sural
Desce por trás do maléolo lateral até a borda externa do pé e o quinto dedo. Cerca de 22% das lesões. Envolvido em acessos posterolaterais e em cirurgias do tendão de Aquiles.
Safeno
Chega pela face interna do tornozelo. Cerca de 18% das lesões. Explica a dor em queimação na borda medial do pé depois de fixação do maléolo interno.
Nervos digitais e o dorsomedial do hálux
Ramos finos que inervam os dedos. São os envolvidos na cirurgia de joanete e na de neuroma de Morton — os dois cenários mais comuns de dor de nervo no antepé.
A correção do hálux valgo é uma das cirurgias ortopédicas mais realizadas, e na maioria das vezes vai bem. Mas o nervo cutâneo dorsomedial do hálux passa exatamente sobre a região da osteotomia, numa faixa estreita de poucos milímetros. Estudos anatômicos mostram alteração de condução desse nervo em cerca de 45% dos operados. A boa notícia está na outra ponta do número: em torno de 3% isso se traduz em sintoma clinicamente relevante, e sequela permanente incapacitante fica abaixo de 1%.
O quadro típico é reconhecível: dormência na borda interna do dedão que convive com dor em queimação ou choque, cicatriz que dói ao encostar, e desconforto desproporcional ao contato do sapato ou do lençol. Quando o nervo forma um pequeno bulbo cicatricial na ponta cortada, existe um ponto exato que reproduz o choque à percussão — um achado de exame que orienta o diagnóstico.
A técnica minimamente invasiva reduziu a exposição, mas não eliminou o risco: a fresa trabalha às cegas na mesma zona onde o nervo passa. Não é sinal de que algo deu errado no seu procedimento.
Aqui existe um paradoxo que precisa ser dito com clareza: a cirurgia do neuroma de Morton trata dor de nervo cortando o nervo. Funciona na maioria — as séries mostram alívio completo em cerca de 74%, alívio parcial em 18% e falha em 6%. O problema aparece na minoria em que a ponta cortada não se acomoda.
Todo nervo seccionado tenta se regenerar. Quando os brotos não encontram caminho, formam um emaranhado desorganizado na extremidade — o neuroma de coto. Ele aparece em cerca de 5% a 10% dos casos e tem uma assinatura característica no tempo: a pessoa melhora depois da cirurgia, fica bem por semanas ou meses, e a dor volta — muitas vezes pior e mais elétrica que a original. Em cerca de um terço dos que voltam a doer, esse intervalo livre está presente e é o que aponta o diagnóstico.
Sobre reoperar, o número honesto: a revisão melhora substancialmente a dor em cerca de 75%, mas menos da metade desses fica sem dor. É um resultado razoável, e claramente inferior ao da primeira cirurgia. Isso importa na decisão — reoperar não é a continuação natural do tratamento, é uma escolha com expectativa própria.
A fixação de fratura de tornozelo com placa e parafusos tem resultado funcional satisfatório na maioria, e é isso que costuma ser dito na alta. O que raramente é dito é o que uma coorte de 271 pacientes operados encontrou anos depois: 48% ainda tinham dor, e 23% tinham dor com características neuropáticas em questionário validado.
A via de acesso muda o risco
Lesão sintomática do nervo fibular superficial foi encontrada em 21% dos pacientes operados pela via lateral da fíbula, contra 9% dos tratados com gesso. Na via posterolateral, os estudos não identificaram lesão desse nervo. Isso não significa que a cirurgia foi um erro — significa que a dor que você sente tem uma explicação anatômica documentada, e não é um mistério nem exagero seu.
Dor de nervo é diagnóstico de exclusão — e no pé há causas mecânicas que se corrigem
Antes de assumir que a dor vem de um nervo lesado, é obrigatório descartar as causas que têm correção própria. Procure avaliação do cirurgião que operou diante de:
Nenhum desses sinais é catastrófico por si só. O que eles significam é que existe um passo de investigação — radiografia, tomografia, exames de infecção — que precisa vir antes do tratamento da dor. Tratar como neuropatia uma dor que é de parafuso solto não resolve nem uma coisa nem outra.
Emergência
Dor e inchaço novos na panturrilha, com a perna quente e endurecida, podem indicar trombose venosa. Pé frio, pálido, com formigamento intenso e sem pulso pode indicar comprometimento arterial. Nos dois casos, procure um pronto-socorro ou ligue 192 — não espere a consulta. Ter uma dor crônica conhecida não protege ninguém de um evento vascular novo.
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Existe um quadro diferente da dor de um nervo isolado, e que precisa ser reconhecido cedo. Na síndrome dolorosa regional complexa — antes chamada de distrofia simpático-reflexa — não é um filete nervoso que dói: é o membro inteiro que entra em desregulação. O pé fica inchado, muda de cor e de temperatura, sua mais ou menos que o outro, os pelos e as unhas mudam, a pele fica sensível a ponto de o lençol incomodar, e a articulação começa a enrijecer.
A frequência depende muito de como se define o diagnóstico, e vale mostrar a variação em vez de escolher o número mais conveniente: em uma coorte de 390 cirurgias eletivas de pé e tornozelo, cerca de 4% preencheram critérios. Após fraturas, os números vão de 0,3% num estudo prospectivo com critérios rigorosos até 7% em outras séries. A discrepância é grande e reflete metodologia, não realidade diferente.
Por que a pressa importa aqui
Diferente da dor de nervo isolada, que é estável no tempo, a síndrome regional complexa tende a progredir para rigidez e perda funcional se ficar meses sem tratamento dirigido. Reabilitação precoce e controle da dor no início mudam o desfecho. Pé que incha, muda de cor e não tolera o toque depois de uma cirurgia ou de um gesso não é "recuperação lenta" — é um quadro que merece avaliação em semanas, não em anos.
Este é o diferencial que mais passa despercebido, e é o motivo pelo qual um neurocirurgião costuma enxergar coisas que a avaliação local não pega. O pé é o destino final de nervos que vêm da coluna lombar. Uma dor que aparece no pé pode ter gerador em qualquer ponto desse trajeto.
Raiz lombar comprimida
Compressão de L5 ou S1 dói no dorso do pé ou na planta, sem doer na coluna em muitos casos. Pistas: a dor muda com a posição da lombar, piora ao sentar ou ao tossir, e o território não corresponde ao da cicatriz.
Neuropatia periférica
Diabetes, quimioterapia, deficiência de B12. Pista decisiva: é bilateral e simétrica, em formato de bota, e não respeita o lado operado. Pode coexistir com a lesão cirúrgica e piorar o quadro.
Compressão do nervo tibial
Aprisionamento no túnel do tarso, atrás do maléolo interno. Dá queimação na planta que piora ao final do dia e à noite. Pode ser desencadeado ou agravado pelo edema pós-operatório.
Sobrecarga por marcha alterada
Meses mancando redistribuem a carga. Aparece dor em regiões que nunca foram operadas — outro pé, joelho, quadril, lombar. Não é dor de nervo e responde a reabilitação, não a medicação neuropática.
Não existe exame de imagem que mostre um nervo sensitivo do pé doendo. Radiografia, tomografia e ressonância servem para excluir as outras causas, não para confirmar essa. O diagnóstico é clínico, e se apoia em características que a dor neuropática tem e a dor mecânica não tem.
A qualidade da dor
Queimação, choque, agulhada, sensação de pé "dormente que dói". Descrições elétricas e térmicas praticamente não aparecem em dor de osso ou de articulação.
O território
A dor ocupa a faixa de pele de um nervo específico — a borda interna do dedão, o dorso do pé, a borda externa até o quinto dedo. Ela respeita um mapa anatômico.
O paradoxo do toque
A área está dormente e dolorida ao mesmo tempo. A meia, o lençol ou a costura do sapato provocam dor desproporcional — alodinia, um dos achados mais característicos.
O ponto que dispara
Existe um lugar exato, em geral sobre a cicatriz, cuja percussão manda um choque para o dedo. Achado de exame simples e muito informativo — localiza o nervo envolvido.
A Escada de Tratamento
A maior parte das pessoas melhora nos dois primeiros degraus. Chegar ao consultório com pedido de procedimento sem ter feito tratamento clínico adequado é comum — e quase sempre significa voltar um passo antes de avançar.
Primeiro
Medicação específica para dor neuropática — antidepressivos em dose analgésica e anticonvulsivantes moduladores. Analgésico comum e anti-inflamatório não agem nesse tipo de dor.
Segundo
Reabilitação dirigida: dessensibilização da área, recuperação do padrão de marcha, mobilidade do tornozelo e adequação do calçado ou da palmilha. Determinante no resultado e sistematicamente subestimado.
Terceiro
Procedimentos dirigidos ao nervo acometido ou revisão do material de síntese, usados tanto para confirmar o gerador da dor quanto para tratá-lo. Fazem parte da escada, não são o ponto de partida.
Quarto
Neuromodulação, para dor refratária bem caracterizada e com território definido. É onde entra o eletrodo de gânglio da raiz dorsal, detalhado abaixo.
As diretrizes internacionais colocam quatro medicamentos como primeira linha para dor neuropática: amitriptilina, duloxetina, gabapentina e pregabalina. São todos eficazes, e todos com uma limitação que precisa ser dita antes de começar.
Para cada 4 a 8 pessoas tratadas, 1 obtém metade da dor a menos
É o que significa o número necessário para tratar dessas medicações, que varia de cerca de 3,6 a 7,7 conforme a droga. Não é um número ruim para dor crônica — é o padrão da área. Mas explica por que trocar de medicação é normal e não é fracasso: a chance de a primeira escolha ser a certa para você é honestamente limitada, e o percurso costuma envolver ajuste de dose e combinação.
Quando a Dor é Refratária
O gânglio da raiz dorsal é a estação por onde passa toda a informação sensitiva de um território antes de entrar na medula. Numa dor pós-cirúrgica do pé o território é conhecido e delimitado — sabe-se qual nervo foi lesado e qual raiz corresponde a ele. Isso torna possível colocar um eletrodo exatamente nesse ponto, em vez de estimular uma área ampla.
Há um detalhe que diferencia esta indicação de todas as outras desta série de páginas: o ensaio que consolidou a técnica foi feito exatamente aqui — em dor neuropática focal de membro inferior. Não é extrapolação de mecanismo. É a população estudada.
O que a evidência sustenta
Ensaio randomizado com 152 pacientes com síndrome dolorosa regional complexa e causalgia de membro inferior. O DRG foi superior à estimulação medular convencional aos 3 e aos 12 meses, com sucesso de tratamento em torno de 69% no fim do primeiro ano.
Testa antes de implantar
Existe uma fase de teste com o eletrodo posicionado e o gerador externo. Só se prossegue para o implante definitivo se o alívio for significativo nesse período. É a maior segurança do método.
Precisão e estabilidade
A estimulação cobre o território dolorido sem se espalhar, e o efeito não muda quando o paciente troca de posição — uma limitação conhecida da estimulação medular convencional, especialmente incômoda em dor de pé, que aparece ao andar.
O que também precisa ser dito
Não é procedimento sem risco. Os eventos mais frequentes no estudo foram estimulação motora transitória, extravasamento de líquor com dor de cabeça e infecção. E não é primeira opção: pressupõe os degraus anteriores percorridos.
O que o tratamento não faz
Não regenera o nervo que foi lesado — nenhuma das opções desta página devolve o nervo ao estado anterior. Não devolve a sensibilidade normal da área dormente. Não corrige deformidade, artrose nem consolidação viciosa: se a dor tem componente mecânico, ele exige solução mecânica. E não elimina a dor por completo na maioria dos casos — o objetivo realista é reduzir a intensidade a um nível que devolva marcha, sono e rotina.
Não existe garantia de resultado em dor crônica. Existe diagnóstico bem feito, degraus percorridos na ordem certa e expectativa combinada antes de começar — e desconfie de quem prometer mais do que isso.
As dúvidas que mais aparecem na consulta de quem operou o pé e continua com dor muito tempo depois.
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Tratamento Especializado
Dr. Wilson Morikawa Jr. — Neurocirurgia Funcional e Dor Crônica
CRM-SP 163410 · RQE 101438
Avaliação de dor neuropática persistente após cirurgia do pé e do tornozelo, com indicação criteriosa — separando o que é dor de nervo do que é problema mecânico, esgotando o tratamento clínico quando ele resolve, e reservando a neuromodulação para os casos refratários e bem caracterizados.
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