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Dr. Wilson Morikawa Jr.

Angina Refratária: Estimulação Medular Quando Não Há Opção

Existe tratamento para quem continua com dor no peito depois de já ter feito stent, ponte de safena e ajustado toda a medicação. A estimulação medular é uma das poucas alternativas para esse cenário, e é indicada justamente quando o cardiologista comunica que não há mais o que revascularizar.

Ela não desentope artéria e não substitui nenhum tratamento cardiológico. O que ela faz é modular a informação que chega do coração à medula espinhal, reduzindo a frequência das crises, a necessidade de nitrato e a limitação para caminhar. Em séries de longo prazo, o ganho em qualidade de vida foi expressivo.

Também é preciso dizer o que a literatura ainda não fechou — e esta página diz. Abaixo estão a indicação precisa, o que a evidência sustenta hoje, o que ainda está em investigação, e como funciona o período de teste que antecede qualquer implante definitivo.

Em Resumo

Para quem é

Angina persistente por mais de três meses, com isquemia documentada, apesar de terapia otimizada e sem possibilidade de nova revascularização.

O que melhora

Frequência de crises, consumo de nitrato, tolerância ao exercício e qualidade de vida.

Recomendação formal

Diretriz europeia de cardiologia de 2019: classe IIb, nível de evidência B. É terceira linha, não primeira escolha.

O que falta

Ensaio duplo-cego concluído. O estudo SCRAP encerrou a avaliação primária em 2025 e ainda não publicou resultados.

Tem teste antes

O eletrodo é testado por alguns dias antes de qualquer implante definitivo. Quem não responde, não implanta.

O que ela não é

Não desobstrui artéria, não substitui medicação e não dispensa o acompanhamento cardiológico.

O que caracteriza a angina refratária

Angina refratária não é angina difícil de controlar. É uma definição específica, e ela importa porque delimita quem se beneficia da estimulação medular.

O quadro reúne três condições ao mesmo tempo:

1

Sintoma persistente. Dor no peito limitante por mais de três meses, mesmo com o tratamento medicamentoso levado ao máximo tolerado.

2

Isquemia documentada. A dor tem correspondência objetiva em exame — não é dor torácica de outra origem.

3

Revascularização esgotada. Angioplastia e cirurgia já foram feitas, ou foram consideradas inviáveis pela equipe de cardiologia.

É o paciente que ouve a frase mais difícil da cardiologia intervencionista: "não há mais o que fazer pelas suas artérias". O que muitos não sabem é que essa frase se refere às artérias — não ao sintoma.

Por que estimular a medula alivia uma dor do coração

A dor da angina não nasce no coração — ela é percebida no cérebro, depois de percorrer fibras nervosas que entram na medula espinhal na altura da região torácica alta. É exatamente nesse trajeto que a estimulação atua.

Um eletrodo é posicionado no espaço epidural, na altura aproximada de T1 a T4, e emite pulsos elétricos de baixa intensidade que modulam a transmissão desses sinais. Mas o efeito descrito na literatura vai além da analgesia: há redução da atividade simpática cardíaca, com queda do consumo de oxigênio pelo miocárdio e possível redistribuição do fluxo coronário para áreas isquêmicas.

A diferença que importa

Se o efeito fosse apenas mascarar a dor, o método seria perigoso — o paciente perderia o sinal de alarme de um infarto. Os estudos que investigaram essa questão indicam que a percepção da dor isquêmica aguda é preservada. O paciente continua sentindo um evento agudo. Esse é um dos pontos mais estudados justamente por ser a primeira preocupação de qualquer cardiologista.

O que a evidência sustenta, e o que ainda não

Ser honesto sobre isso é parte da indicação. Um paciente que entende o terreno decide melhor.

O que os estudos mostram

Redução consistente da frequência de crises anginosas e do consumo de nitrato. Ganho em tolerância ao exercício e em qualidade de vida medida por questionário específico.

Uma série de longo prazo registrou melhora de cerca de 24 pontos no Seattle Angina Questionnaire — magnitude clinicamente relevante.

O que ainda falta

Não há ensaio duplo-cego concluído e publicado. O estudo SCRAP, primeiro desse desenho, encerrou a avaliação primária em 2025 e os resultados ainda não vieram a público.

A diretriz europeia de 2019 classifica a indicação como IIb, nível B — pode ser considerada, com evidência moderada.

Vale registrar também que parte da literatura em cardiologia coloca a estimulação medular como terceira linha, com base de evidência menos robusta do que a de alternativas como o redutor de seio coronário. Essa é uma leitura legítima, e é por isso que a indicação se dá caso a caso, em conversa com o cardiologista assistente — não como recomendação automática.

O contraponto prático é que estamos falando de pacientes que já esgotaram as opções convencionais. Nesse grupo, o que está em jogo não é escolher entre vários caminhos bons, e sim decidir entre tentar algo com evidência moderada ou aceitar a limitação como definitiva.

O Que a Estimulação Medular Não Faz

Limites que precisam estar claros antes de qualquer decisão

  • Não desobstrui artéria. A doença coronária permanece exatamente como está.
  • Não substitui a medicação. Antiagregante, estatina e demais fármacos continuam.
  • Não dispensa o cardiologista. O acompanhamento segue integralmente com a equipe de origem.
  • Não altera a mortalidade. O ganho documentado é de sintoma e função, não de sobrevida.
  • Não funciona para todos. É justamente por isso que existe o período de teste antes do implante definitivo.

Dor no peito de início recente, em mudança de padrão ou em repouso é emergência cardiológica e não tem relação com o que se discute nesta página. Procure atendimento imediato.

Já ouviu que não há mais o que fazer pelas suas artérias?

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O Período de Teste

Você experimenta antes de decidir

Esta é a característica que mais diferencia a neuromodulação de qualquer outra cirurgia. Nenhum implante definitivo é feito sem que o paciente tenha vivido o resultado antes.

Etapa 1 — Teste

Eletrodo posicionado por punção, sob anestesia local e sedação, conectado a um gerador externo. O paciente volta para casa e vive alguns dias com o sistema ligado.

Etapa 2 — Avaliação

Comparamos frequência de crises, uso de nitrato e distância de caminhada com o período anterior. A decisão é baseada no que aconteceu, não em expectativa.

Etapa 3 — Definitivo

Só quem responde de forma clara segue para o implante do gerador. Quem não responde retira o eletrodo de teste, sem nada permanente.

Perguntas Frequentes

As dúvidas que aparecem na primeira conversa, tanto de pacientes quanto de cardiologistas.

Se a dor for bloqueada, como vou saber se estou infartando?
Esta é a primeira pergunta de praticamente todo cardiologista, e ela é pertinente. Os estudos que investigaram especificamente essa questão indicam que a percepção da dor isquêmica aguda é preservada — o paciente continua percebendo um evento agudo. O efeito descrito não é o de apagar o sinal de alarme, e sim o de reduzir a carga de dor crônica do dia a dia. Ainda assim, orientação sobre sinais de alerta e manutenção do acompanhamento cardiológico fazem parte do protocolo.
Quem tem marca-passo ou desfibrilador pode fazer?
Pode, mas exige cuidado adicional e coordenação com a equipe de eletrofisiologia. Há relatos de uso combinado dos dois dispositivos, com necessidade de ajustes de programação e testes de interferência para garantir que a estimulação medular não altere a leitura do desfibrilador. É uma situação que demanda planejamento conjunto, não uma contraindicação absoluta.
Isso substitui a ponte de safena ou o stent?
Não, e essa distinção é essencial. A estimulação medular não trata a obstrução coronária — ela não desobstrui nada. A indicação existe justamente para quem já fez essas intervenções ou para quem foi considerado inelegível para elas. Se ainda houver possibilidade de revascularização com benefício, ela vem primeiro. A neuromodulação entra depois que esse caminho se esgota.
O tratamento aumenta a expectativa de vida?
Não é isso que a evidência demonstra. O benefício documentado é sobre sintoma e função — menos crises, menos nitrato, mais capacidade de caminhar, melhor qualidade de vida. Não há demonstração de redução de mortalidade, e seria desonesto prometer isso. Para um paciente que não consegue atravessar a própria casa sem parar, porém, recuperar autonomia já representa uma mudança relevante.
Como sei se vai funcionar comigo?
Você não precisa saber de antemão — é para isso que existe o período de teste. O eletrodo é posicionado e conectado a um gerador externo, e você vive alguns dias com o sistema ligado, na sua rotina normal. Ao final, comparamos objetivamente frequência de crises, consumo de nitrato e distância de caminhada com o período anterior. Só segue para o implante definitivo quem apresenta resposta clara. Quem não responde retira o eletrodo, sem nada permanente.
O convênio cobre?
A estimulação medular consta no rol de procedimentos da saúde suplementar para indicações de dor crônica refratária, com diretriz de utilização específica. A cobertura depende do enquadramento do caso nessa diretriz e da documentação enviada, que precisa demonstrar a refratariedade ao tratamento convencional. O relatório médico detalhado, com histórico de terapias já tentadas e evidência objetiva de isquemia, é a peça central desse pedido.
Sou cardiologista. Quando devo encaminhar?
Quando o paciente mantém angina limitante apesar de terapia otimizada, tem isquemia documentada e a equipe de hemodinâmica ou cirurgia cardíaca já concluiu que não há alvo revascularizável com benefício. Não é necessário que o paciente esteja no limite da incapacidade — quanto mais cedo na trajetória de refratariedade, mais preservada costuma estar a capacidade funcional que se pretende recuperar. A avaliação de candidatura pode ser feita em conjunto, e o acompanhamento cardiológico permanece integralmente com você.
Qual é a evidência real por trás disso?
A diretriz europeia de cardiologia de 2019 classifica a indicação como classe IIb, nível de evidência B — ou seja, pode ser considerada, com base em evidência moderada. Os dados observacionais e de estudos abertos são consistentes quanto à redução de crises e melhora de qualidade de vida. O que ainda não existe é um ensaio duplo-cego concluído e publicado: o estudo SCRAP, primeiro com esse desenho, encerrou a avaliação primária em 2025 e os resultados são aguardados. Parte da literatura em cardiologia trata a técnica como terceira linha por esse motivo, e essa leitura é legítima.

Neuromodulação Avançada

Angina Refratária
em São Paulo

Dr. Wilson Morikawa Jr. — Neurocirurgia Funcional e Dor Crônica
CRM-SP 163410 · RQE 101438

Avaliação de candidatura à estimulação medular em angina refratária, com período de teste antes de qualquer implante definitivo e acompanhamento conduzido em conjunto com o cardiologista assistente.

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